Gazeta do Povo: O berço dos Campos Gerais

Gazeta do Povo: O berço dos Campos Gerais

Cenário do surgimento do povoamento dos Campos Gerais no século 18, abrigo de uma comunidade de escravos no século 19 e testemunha do avanço do cooperativismo de imigrantes holandeses no século 20, a fazenda Capão Alto, localizada em Castro, nos Campos Gerais, está finalmente mais próxima de uma restauração. Um projeto aprovado pela Lei Rouanet, do Ministério da Cultura, permite o levantamento arqueo­lógico da área de 15 hectares. A sondagem é o primeiro passo para o restauro do casarão, construído em 1840.

A fazenda é mais antiga que o casarão. Ela surgiu no período colonial, em 1704, quando a Coroa Portuguesa distribuiu sesmarias entre seus simpatizantes. Um deles foi o rico português Pedro Taques de Almeida. Cada sesmaria media 6,6 mil metros por 6 mil metros, mas Almeida deu um “jeitinho” e enviou 22 requerimentos com pedidos de sesmarias ao reino português, cada um no nome de um familiar.

Assim, conta a diretora do Museu do Tropeiro e da Casa de Sinhara, em Castro, Léa Maria Cardoso Villela, Almeida conseguiu uma imensa área, que ia da atual região de Ponta Grossa até o Norte Pioneiro. Como Almeida não tinha interesse em viver na colônia portuguesa, ele concedeu as terras a José de Goes e a Inácio Taques de Almeida. O local onde hoje está a fazenda Capão Alto foi garantido a José de Goes, que lhe deu o nome de Sesmaria da Paragem do Iapó, devido ao rio que corre no meio da área.

Em meados de 1750, a fazenda foi repassada à irmandade carmelita. Nesse período, o tropeirismo já ganhava corpo e o Rio Iapó foi um grande aliado dos viajantes. Léa conta que os tropeiros descobriram um vau (parte rasa do rio) que permitia a passagem da tropa em direção à atual Região Norte do estado e, finalmente, caminho para a feira de animais em Sorocaba (SP).

Nova rota

A passagem, que facilitou a vida dos tropeiros, criou consequências desagradáveis para os padres carmelitas, que não gostaram da movi­mentação das tropas em suas terras. “Eles falaram para os tropeiros que tinha muita terra para o outro lado do rio e que eles podiam ficar lá”, conta a pesquisadora. Os tropeiros seguiram a sugestão com tom de pressão e, em 1779, surgiu a freguesia de Castro.

“Os tropeiros percorriam no máximo 45 quilômetros por vez, que era o trajeto feito no decorrer de um dia, e paravam para descansar o rebanho”, conta Léa. Dessa forma, cada ponto de parada da caravana fazia surgir um pequeno povoado, que mais tarde se transformava em cidade. “Foi assim que surgiram Piraí do Sul e Jaguariaíva”, afirma a pesquisadora.

Hoje, parte dos descendentes dos antepassados que viveram nesses povoados visita o casarão da fazenda Capão Alto. Embora não tenha estrutura para visitação, como banheiros e pontos de venda de alimentação, o casarão recebe em média 3,6 mil turistas por ano, entre excursões de estudantes e visitantes em geral. Quem os recebe é o caseiro e guia João Klempovus Neto. Ele se veste como tropeiro e reconta a história da fazenda. “Eu gosto muito daqui, revivo a história e faço amigos”, relata. Na manhã do último dia 12, por exemplo, cerca de 60 crianças do 4.º ano do ensino fundamental de um colégio particular de Ponta Grossa conheceram o casarão.

Relíquias históricas

Ruínas de capela e casa de escravos são resquícios do século 18

Quando os carmelitas adquiriram a fazenda Capão Alto, em meados do século 18, colocaram escravos para trabalhar e morar na região para garantir o cuidado da propriedade.

Já havia no local uma capela construída em taipa (barro amassado) em meados de 1740 e que era ponto de encontro dos cristãos que viviam no povoado. As ruínas da capela ainda existem na fazenda e estão cobertas e cercadas para evitar depredação ou a ação do tempo. Conforme o curador do projeto de restauração, Tarás Dilay, o mapeamento arqueológico mostrará se existe um cemitério no local, já que era costume dos carmelitas sepultar os corpos de seus religiosos próximos à capela.

Outro resquício do século 18 que pode ser visto no local são duas casas onde viviam os escravos e um tronco que era usado para os castigos físicos. Durante mais de um século a fazenda abrigou uma comunidade de cerca de 300 escravos. Dilay lembra que o inusitado é que os negros eram “praticamente livres”, porque os padres carmelitas confiavam a eles os cuidados da fazenda e, em troca, eles tinham autonomia para trabalhar e viver no local.

Em 1864, os carmelitas venderam a fazenda para uma companhia paulista. Os escravos estavam incluídos no pacote. “Isso causou uma revolta muito grande, muitos deles fugiram porque não queriam ser subordinados à companhia e formaram quilombos no Paraná”, conta o guia João Klempovus Neto.

 

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