Tombamento

Ato de Tombamento

FAZENDA CAPÃO ALTO

Inscrição Tombo 80-II

Processo Número 82/81

Data da Inscrição: 26 de novembro de 1.983      Livro Tombo Histórico

Localização:        CASTRO

Capão Alto

Proprietário: Particular – Cooperativa Central de Laticínios do Paraná Ltda., em comodato para o Grupo Folclórico de Castrolanda

 

Referencia do Tombo

 

HISTÓRICO

Localizada em terras de sesmarias concedida na região no início do século XVIII (1704), a Fazenda do Capão Alto se situa no quadro da ocupação dos Campos Gerais do Paraná, como decorrência da descoberta de ouro nas regiões de Minas Gerais, gerando a necessidade de alimentação e transporte para os mineradores que para lá convergiram. Data daquela época o início de uma atividade pastoril cujo objetivo era o fornecimento de gado para as catas auríferas, através da feira de Sorocaba. A autorização régia de 1702, para a concessão de sesmarias, constituiu incentivo ao empreendimento. Entretanto, ao contrário do que aconteceu em outros lugares – Lages, por exemplo -, a ocupação dos Campos Gerais não teve sentido de colonização: era simples negócio a ser explorado enquanto as condições a favorecessem. A abertura da Estrada Viamão-Sorocaba motivou o surgimento, ao longo do caminho, de pousos, currais e invernadas, e um deles foi o estabelecido à margem esquerda do Rio Iapó, por volta da década 1730-1740.

Anos mais tarde, segundo documentação, já existia uma pequena capela no local chamado Capão Alto, que fazia parte de uma sesmaria inicialmente requerida por Pedro Taques de Almeida e que por sua morte foi Ter ao filho José de Góes e Morais, cabendo a Timóteo Corrêa de Góes, outro membro do clã, a posse das terras ali localizadas.

Posteriormente Capão Alto foi vendida a João Gonçalves Figueira, cuja viúva viu-se obrigada a leiloar a propriedade, em 1749.

O arrematador foi o capitão-mor José de Góes e Morais, figura importante da história paranaense, que embora paulista e não vivendo em suas terras no Paraná, concorreu para o povoamento dos Campos Gerais, ao estabelecer fazendas produtivas e doas terras para congregações religiosas, as quais, efetivamente, promovem a ocupação das propriedades.

Em 1751 a Fazenda do Capão Alto foi adquirida pelos carmelitas pela quantia de dois contos de réis; e com as terras da fazenda, que abrangiam área de 100 léguas quadradas, vieram, também, cerca de duas mil cabeças de gado e mais de 140 cavalos. Diz o livro de Registro de Terras da Paróquia de Sant’ana de Castro que a Fazenda do Capão Alto foi comprada “a 21 de outubro de 1751 por Frei João de Santa Izabel” e que suas divisas eram formadas “pelo rio Iapó, Ribeirão Tabor e rio Maracanã, sendo, na mesma data, dada posse ao procurador da Ordem Carmelita Pedro Alvarez da Paz, assistido pelos reverendos Superior Frei Ângelo Preto do Espírito Santo e Frei José de Sant’ana.” Ignora-se a data em que a escritura tenha sido lavrada, mas seria antes de 1754, pois naquele ano já existia a capela de Santo Antônio do Capão Alto, filial do convento de Nossa Senhora da Conceição do Tamanduá, que a ordem possuía nos Campos Gerais. Até 1771 existem assentamentos a respeito dos carmelitas em Capão Alto, quando, não satisfeitos com a situação em que estava a igreja, ficou resolvida a construção de outra, em posição mais favorável, às margens do Iapó, sob a invocação de Sant’ana. Como esta igreja foi elevada à categoria de freguesia em 1769, os assentamentos passaram a ser feitos no templo da nova povoação que foi elevada à condição de vila e, mais tarde, cidade, com o nome de Castro. A vila deveria localizar-se no Capão Alto; entretanto, ciosos, provavelmente, de seus negócios particulares, os carmelitas forçaram a criação do povoado às margens do Iapó, ali construindo nova capela, consagrada, como já foi dito, a Sant’ana.

Posteriormente a capela da Santo Antônio foi substituída por outra, sob a devoção de Nossa Senhora do Carmo. Por muitos anos a Fazenda Capão Alto – após a retirada dos carmelitas para São Paulo e Rio de Janeiro – ficou sob a supervisão de um administrador até ser entregue, após breve arrendamento a terceiros, aos escravos que nela residiam e trabalhavam e que, entregues à própria sorte, organizaram uma república sob a invocação de Nossa Senhora do Carmo, “a quem ouvião e de quem recebião as ordens do dia”. Neste quilombo, que se manteve em ordeiro e pacífico por muitos anos, os negros trabalhavam a terra e criavam gado, vendendo em Castro apenas o que lhes era necessário para viver e reservando o resto da produção para a Virgem e, demais, mantendo elevada reputação de honestidade em toda a região.

Em 1864, os escravos do Capão Alto – na época, cerca de 300 – foram vendidos à firma Gavião, Ribeiro & Gavião, de São Paulo, o que motivou uma rebelião pelo fato de se considerarem livres e, “se escravos, somente de Nossa Senhora do Carmo”.

Apesar de toda a reação, os escravos acabaram sendo levados para São Paulo. Em 27 de junho de 1870, segundo escritura, a Fazenda Capão Alto foi vendida por Frei Damasio de São Vicente Ferreira a Bonifácio José Baptista, abastado fazendeiro e político, produto típico da sociedade campeira que ocupou os latifúndios dos Campos Gerais e que encontrou no tropeirismo a forma de participação na sociedade local.

Adquirido por 30 contos de réis, o imóvel compreendia “campos, campinas, matos e logradouros por sesmarias e casas, mangueiras e todas as dependências”. Ao que consta, o novo proprietário teria mandado construir “casas do tipo colonial usado nas fazendas do Norte nos séculos XVI e XVII(…)”, adquiriu mobiliário, cercou-se de todo o conforto e importou reprodutores para os seus rebanhos. Em artigo publicado em 1886 na Gazeta do Paranaense, o cronista Nivaldo Braga faz referência à casa erguida por Bonifácio José Baptista: “Da cidade de Castro avista-se perfeitamente a nova morada mandada construir pelo actual proprietário, com certo gosto e capricho segundo dizem.

Apresenta uma bela e imponente perspectiva, contemplada de longe no meio do campo e sobressaindo das ondulações de uma série de lombas que se sucedem. Há estradas para carros, entre a cidade e a fazenda. Aos fundos desta chega-se pelo Iapó, em canoas”.

Fixando residência em Capão Alto, Bonifácio José Baptista dedicou-se à leitura e organizou a Biblioteca de Castro, que chegou a Ter seis mil volumes.

Em 20 de novembro de 1886 D. Pedro II conferiu a ele e a sua Herdada em 1905 por Evangelina Prates da Silva Baptista, neta dos barões e que se casou com Javert Madureira, médico, a Fazenda do Capão Alto, na década de 40, deste século, após rumoroso processo, foi Ter às mãos de Vicente Virillo, que recebeu, também, a fazenda Monte Alegre, que com ela confirmava e que, em 1873, havia sido adquirida por Bonifácio José Baptista.

Em 1979 a propriedade foi vendida à Cooperativa Castrolândia, cuja intenção, preliminarmente, foi a de restaurá-la, transformando-a em hotel-fazenda.

Capão Alto é, sem dúvida, um dos marcos históricos mais importantes do processo de ocupação dos Campos Gerais do Paraná. Inexistem documentos capazes de esclarecer quais construções havia ao tempo em que foi adquirida pelo barão de Monte Carmelo aos carmelitas. As 12 edificações – casa – sede, casa do capataz, casa dos arreios, cocheira, fábrica de queijos, estábulos, celeiros, aviários e depósitos – que compõem a propriedade – indicam, claramente, épocas distintas; algumas são de taipa-de-pilão com divisões internas de pau-a-pique ou estuque e delimitam os pátios fronteiro e posterior. As demais, de alvenaria de tijolos ou, então, de madeira, são, provavelmente, do tempo em que a fazenda, de gado para corte, passou a ser de gado leiteiro. A casa-sede tem à sua frente pátio murado, sendo que um dos lados é fechado pela parede das antigas edificações compostas pela casa do capataz, celeiro e casa de arreios. Um segundo pátio, aos fundos, ladeado pelo apêndice de serviços e pela antiga fábrica de queijos,

tem no centro o poço e o tanque sob coberta de suas águas.

A casa-sede exemplifica na sua volumetria a arquitetura da segunda metade do século XIX: um pavimento sobre porão alto e um mirante central arrematado a composição. Na frente, em toda extensão da edificação, varanda com colunas e guarda-corpo em ferro. Diante do corpo central, enquadrado por duas portas com requadros em madeira e encimadas por vergas e sobrevergas em arco e em círculo pleno, com bandeira. Escadaria de acesso em cantaria. As demais aberturas são janelas emolduradas por requadros de madeira, sistema em guilhotina, divididas em quadrículos, vergas e sobrevergas retas. Mirante com janelas frontais (duas) e laterais; mesmo sistema do pavimento térreo; telhado, em quatro águas, em telha canal, arrematado por beiral em cimalha, de madeira. Os corpos laterais são cobertos por telhados em três águas, telha canal. Internamente, segue o programa tradicional das casas de fazenda: salões e capela ao longo da varanda, dormitórios e alcovas na faixa central e sala de refeições aos fundos. Cozinha e banheiro estão dispostos no apêndice que dá continuidade à lateral direita da casa.

Em 1983 a Coordenadoria do Patrimônio Cultural da Secretaria da Cultura e Esporte do Paraná, preocupada com a situação de abandono em que se encontrava a fazenda, estabeleceu contato com a Cooperativa Castrolândia a fim de encontrar um caminho para a restauração e reciclagem de uso da fazenda. Em 1984 a arquiteta Rosina Coeli Alice Parchen elaborou um projeto de restauração e reciclagem do conjunto para instalação de um hotel-fazenda com capacidade para 40 hóspedes.

 

E-TEMPO

 

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